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mar 2011 30

Saudações, galera. Espero que estejam bem.

Estou de volta, e hoje em especial com um assunto um pouco diferente: jornadas heróicas em ambientes futuristas. Primeiramente é necessário entendermos como muitas das narrativas – cinemáticas, lúdicas ou literárias – que conhecemos são construídas; as rédeas que nos direcionam nelas.

Já há alguns anos que os roteiros estão tornando-se similares, em suas mais diversas aplicações. Para ilustrar tal situação basta se atentar a qualquer narrativa atual onde, independente da mídia, personagens inicialmente comuns são levadas à situações incomuns, e a partir de então ganham habilidades, superam medos e fraquezas; tornam-se heróis. O fato é que nada disso ocorre a toa. Este “molde narrativo” foi, na verdade, rascunhado pelo pai da psicologia analítica Carl Gustav Jung, e posteriormente desenhado por Joseph Campbell em O Herói de Mil Faces – baseado principalmente em conceitos anteriormente abordados por Jung em sua obra O Homem e seus Símbolos.

A Jornada do Herói é uma proposta de molde narrativo dividido em três principais atos: Apresentação, conflito e resolução. Primeiramente, a apresentação: ela diz respeito ao conhecimento da personagem principal, e do seu cotidiano; seguido de uma espécie de convite ao incomum: uma aventura ou um grande desafio. Pode ainda ocorrer negação ao convite, e então, em geral, surge um guia – figurado por extremos: um sábio ou um herói, por exemplo – ou um motivo que faz com que a personagem mude de ideia e aceite o convite ao desconhecido.

O conflito: é grande parte do desenvolvimento da narrativa, contendo o aparecimento de inimigos e aliados, morte e ressurreição, revelações, a ultima batalha, e o ganho de possíveis recompensas. O que abre caminho para o último ato, a resolução: que diz respeito a solução dos conflitos, e ao retorno do personagem – agora herói – a vida comum.

A trilogia The Lord of the Rings é um bom exemplo da estrutura Jornada de Herói. Nos focando na história, é possível perceber que em primeiro lugar há uma apresentação do personagem Frodo e do dia-a-dia dele no condado. Conforme a história avança, Frodo recebe o convite a aventura: levar o anel até a montanha da perdição. Há negação ao convite. Galdalf desempenha o papel de mentor, um guia. Frodo aceita o convite. No filme, a transição clara dessa apresentação para o conflito ocorre quando já em caminho ao desafio Sam – personagem aliado – conta a Frodo que se der mais um passo será o mais longe que já esteve de casa.

A jornada se segue com outros pontos bem demarcados de conflito, ganho e perda de aliados até a montanha da perdição, onde a tensão final ocorre. A resolução é marcada pelos esclarecimentos pós-vitória e o retorno de Frodo a sua vida normal no condado, agora merecedor de um título heróico.

Evidentemente essa estrutura da Jornada do Herói é claramente maleável, o que a torna possível em qualquer que seja o universo narrativo abordado. Ainda assim, para cada universo narrativo há diferentes possibilidades, pois para cada um há diferentes prioridades durante o processo narrativo.

Neste âmbito, o ato mais afetado pela escolha do universo narrativo é a apresentação. É preciso ter ciência de que durante este primeiro ato, não somente personagens são expostos, mas também um espaço junto com um contexto próprio.

Para estes casos, um espaço mais realista é facilmente assimilado em comparação a um fantasioso que, comumente necessita de alguns esclarecimentos para situar o público na fantasia. Esta apresentação do espaço deve, se fantasiosa, ser apresentada ou em conjunto com o personagem ou em paralelo. Mas o que será que ocorre quando este espaço é parte real e parte fantasia? Este é o caso do espaço pós-apocalíptico e de alguns outros que envolvem ambientes futuristas ou hiper-reais.

A fascinação humana pelo futuro chega a ser platônica. Há uma imensidão de propostas sobre o tema nos mais variados formatos. Todavia, como é possível perceber há sempre dois principais tipos de futuro: o integrado e o apocalíptico. O futuro integrado é aquele proposto em um ambiente comumente tecnológico, pois em teoria diz respeito a uma continuidade do que temos hoje: como será que o mundo estará daqui a 50 anos desconsiderando possíveis fatores caóticos? Haverá carros flutuantes? Teletransporte? Ciborgs? Propostas como esta temos aos montes: em filmes como I Robot, Artificial Intelligence: AI, Minority Report, Brazil etc.; em franquias cinematográficas como Star Trek e Star Wars; em livros como Dune, Ender’s game, O espaço inexplorado etc.; e, claro, em jogo como Crysis, Mass Efffect, Deus Ex e inúmeros outros. Como é possível perceber, o futurista integrado possui níveis de intensidade, nos quais os avanços tecnológicos podem ser mundanos ou intergaláticos.

Na outra faceta do gênero temos o futuro apocalíptico que tem por premissa uma proposta caótica do atual: como seria um futuro onde quase tudo o que conhecemos tivesse fim por algum motivo caótico? Esta pergunta é realmente subjetiva, tanto quanto suas possíveis respostas. Em todas as propostas há sempre um evento caótico inicial em escala local ou global que, se desdobra em uma realidade pós-apocalíptica esmigalhada de conceitos tecnológicos, éticos e morais. Nestes casos encaixam-se filmes como The book of Eli e a trilogia Matrix, livros como O Ultimo Homem e The Postman, e jogos como Fallout e Metro 2033.

Apesar do espaço apocalíptico ser diferente do integrado, isso não necessariamente significa que nele perdura o caos, pode ser algo passageiro, pois o caos também pode estar em um espaço futurista integrado, e geralmente é situacional. O contrário também pode ocorrer, sendo um espaço apocalíptico ou pós-apocalíptico não necessariamente caótico apesar de sua atmosfera atordoante.

Estas possibilidades decorrem principalmente da contextualização de um foco narrativo. Pois, o universo, independente de ser apocalíptico ou integrado possui um contexto próprio. O enredo, porém, nem sempre faz uso de todo o contexto que seu plano de fundo oferece. Assim é possível criar, por exemplo, histórias onde um futuro excessivamente tecnológico torna-se caótico motivado por máquinas pensantes; um futuro pós-apocalíptico onde a humanidade aos poucos se reconstrói de uma destruição massiva e adapta-se a novos valores e novas possibilidades de uma nova realidade; ou outros. Tudo depende do foco narrativo.

Voltando a nossa jornada heróica, e ao personagem, estes sim são claramente influenciados pela possibilidades do espaço narrativo. Na realidade, sempre há caos na jornada do herói, pois sempre há alguma motivação que faça a jornada ter um início ao personagem ou ao jogador. Neste ponto há influência do contexto espacial, pois os acontecimentos do espaço também podem ser precursores na motivação do aspirante a herói no início de sua jornada.

Por enquanto ainda não possuímos uma clara noção do que nos aguarda no futuro, ter contato com possíveis propostas é fascinante. Principalmente quando este contato ocorre de forma interativa como nos games. É divertido especular sobre o futuro, mas mais divertido ainda é participar dessas especulações de maneira ativa, sentindo na própria pele as possíveis consequências, sendo envolvido e se deixando envolver; seguindo o caminho de um herói. Pois o futuro é real e ao mesmo tempo fantasia, sendo assim capaz de nos imergir em sua atmosfera de maneira arrebatadora.

E enquanto isso é possível, por quê não jogar com o futuro ? Pode ser divertido.

O que vocês pensam sobre jornada heróicas em ambientes futuristas ?

Comentem.

Abraços.

por Rauí Fernando.

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Considerações sobre jornadas heróicas futuristas, 5.0 out of 5 based on 2 ratings

5 Comentários

  1. FIlipe Pan disse:

    é uma pena q pessoas não comentem um bom texto como esse, parabéns cara boa analogia!

  2. O Chefe disse:

    Com certeza filipe, o Raui hoje na minha opnião é um dos melhores textos do brasil na parte de games, temos muito orgulho de ter ele aqui no #Programadoresdejogos;

    Valeu Raui mais um baita trabalho.

  3. Jota Ce disse:

    Parabens cara !!!!!!
    Muito interessante o assunto !!! (Y)

  4. Renan Aspira disse:

    O problema da jornada heróica em ambientes futuristas é o fato de que o universo tem que ser apresentado de alguma forma, antes do "Convite à aventura!. Algumas histórias fogem disso, como Star Wars que usa o planeta Tattoine (que tem um ambiente mais comum a nossa realidade) como o comum e o resto do universo como o extraordinário.

    O mais comum em aventuras futuristas para representar esse "extraordinário" é um grande exército ou uma grande máquina destrutiva, porque é mais simples mostrar esse novo mundo com uma coisa altamente perigosa, o que pode vir a se tornar o objetivo do herói. Seria como usar uma bomba termonuclear para mostrar o "topo de nossa evolução".

  5. RauiFernando disse:

    Fico feliz que tenham gostado, e fico grato pelos elogios, críticas ou comentários.

    Futuramente pretendo retomar o assunto de jornadas heróicas de maneira mais profunda. Neste post preferi me atentar a questão futurista, justamente por isso, apenas a idéia básica da Jornada do Herói foi exposta. O assunto ainda é bem mais amplo, e merece um post único, pois envolve psicologia.

    Continuo estudando sobre, e assim que possível mais sobre o assunto lhes será exposto.

    Cada coisa no seu tempo.

    Abraços.

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